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Pedro Caetano

NOTA: Ver aqui slideshow com álbum completo

Branco

Continua a leitura de “As Benevolentes“, de Jonathan Littel (ed. D. Quixote, 2007, trad. Miguel Serras Pereira). Desde o “Viagem ao fim da noite”, a opus magnum de Céline, que a leitura de um livro não tinha, para mim, o significado exacto de uma experiência absoluta. O protagonista, recém promovido a SS-Hauptsturmführer (posto correspondente, grosso modo, a capitão) ao serviço da SD (unidade especial afecta ao policiamento e segurança nas zonas ocupadas) acaba de chegar a Kharkov, na Ucrânia, cidade que havia sido tomada há pouco pelos alemães. Como retaliação das explosões provocadas por dispositivos retardados que o Exército vermelho tinha deixado para trás, foram enforcados inúmeros civis. A execução eram públicas e os corpos ficavam pendurados nos edifícios mais altos como aviso. Perante tal visão, o narrador prova porque é que a curiosidade e a sede do absoluto são as razões que o levam cada vez mais fundo nesta epopeia do horror:
“Começava enfim a entrever que, fosse qual fosse o número de mortos que viesse a ver, nunca conseguiria captar a morte, esse momento preciso, no seu próprio momento. Das duas, uma: ou se está morto, e então não há de qualquer modo seja o que for a compreender, ou não se está morto ainda e, nesse caso, a própria espingarda sobre a nuca ou a corda ao pescoço é uma coisa que continua a ser incompreensível, uma pura abstracção, essa ideia absurda de que eu, o único ser vivo no mundo, possa desaparecer. Moribundos, talvez já estejamos mortos, mas nunca morremos, esse momento nunca chega, ou antes, nunca pára de chegar, ei-lo, está a chegar, e depois continua a estar a chegar, e depois já passou, sem nunca ter chegado.”

Nota: sobre a obra, recomendo a leitura de um excelente artigo de Mario Vargas Llosa.

Decorreu na segunda-feira à noite o esperado “Julgamento e Morte do Galo do Entrudo”, que tomou conta das ruas da Guarda. O evento, com produção da Culturguarda, envolveu cerca de 300 participantes activos, inúmeras colectividades locais e grupos espanhóis. Eis algumas imagens registadas durante o espectáculo, da autoria de Pedro Caetano.





NOTA: Ver aqui slideshow do álbum completo

Uma noite de insónia deu nisto: acompanhar a emissão especial da CNN dedicada às eleições primárias nos EUA e em especial aos resultados que iam chegando da Super Terça Feira. Centrei-me no campo democrata, onde está tudo em aberto – diferença de 20 delegados – embora Hillary, em vantagem, tenha todas as condições para embalar para a nomeação. Já há muito tinha percebido que Hillary Clinton seria a melhor escolha para a próxima presidência. Ontem, essa posição ganhou uma consistência definitiva. Em primeiro lugar, porque em relação a Obama criou-se a ideia de associar a sua pertença a determinada etnia e a possibilidade de ser eleito a uma espécie de revolução inimaginável. Um erro crasso. Ontem apercebi-me do seu tipo de discurso: justicialista, centrado nas desigualdades sociais, em especial de base étnica. Uma mensagem para o seu eleitorado-alvo, os negros. Abundam as palavras “change” e “hope”, numa espécie de homilia próxima de Martin Luther King. Obama vê-se a si próprio como o catalizador de uma missão redentora, extirpadora dos vícios dos políticos de Washington e do “sistema” em geral. Criou um “movimento”, um programa político que funciona por agregação e não pela busca de denominadores-comuns, pela abdicação do intervencionismo na esfera externa e pela concentração de recursos nas políticas sociais. Um discurso sedutor, como se adivinha. Mas muito deficitário quando se trata de lidar com as variáveis macro-económicas internas, a globalização e as potencias económicas emergentes. A Obama falta a experiência que sobra a Hillary. Talvez daqui a oito anos desse um bom Presidente. Por outro lado, aquela não precisa de grandes tiradas messiânicas para demonstrar o seu know how, o seu conhecimento e, acima de tudo, as suas qualidades intrínsecas para o desempenho das funções a que se candidata: capaz de reformar sem rupturas, de encontrar uma solução política para o Iraque sem demagogias. Mas tem ainda um longo caminho pela frente, pois luta contra um movimento cada vez mais étnico e populista. De qualquer modo, em caso de empate triunfará o bom-senso, uma vez que a maioria dos chamados super-delegados, personalidades afectas a cada um dos partidos e não comprometidos com o candidato por quem foram eleitos, não deixarão de apoiar Hillary.

As casas de Sócrates – 2

Eis mais algumas réplicas possíveis de edificações “desenhadas” pelo Eng. Pinto de Sousa, em nome dos seus amigos da Câmara da Guarda, alguns dos quais ainda cá trabalham. Repare-se que o primeiro-ministro poderia perfeitamente ter reconhecido o que fez. Provavelmente já nem se falava do assunto. Mas não: auto-vitimizou-se, lançou o anátema a quem investigou, fez-se de virgem ofendida. Saindo, mais uma vez, muito mal na fotografia.




Ver anterior

O truque

Ontem, ao representar para uma assembleia composta por uns bons milhares de pessoas, na Praça Velha, percebi a verdadeira perversidade do episódio mais emblemático de “O Perfume”, de Patrick Süskind, (vd. adaptação cinematográfica de Tom Tykwer). Como se recordam, o protagonista, Jean-Baptiste, provoca um delírio colectivo na assistência, durante a gorada cerimónia pública da sua execução. Uma espécie de deliquescência erótica, uma possessão orgiástica que tomou conta de todos. Todavia, a imagem do amor que ele personificava e que contagiou o que estava em volta, era afinal uma composição metafísica, um truque. O quintessência de uma depuração gradual da necessidade, do tempo, da contingência. O resultado de uma vampirização acumulada da matéria para chegar ao espírito. Aparentemente, tudo se passou como se o brilho arrebatador que emanava do herói encontrasse eco nas pequenas chamas em redor, despertasse um sopro adormecido, o sopro da alma. O momento único em que a metáfora de desejo é também uma forma de revelação do sagrado. A fascinação é mais do que óbvia. No entanto, falta ainda um ponto essencial: a inexorável solidão do protagonista, a devoção canibalesca que suscita e que acaba por vitimá-lo. Volto ao ponto de partida, deixando de parte interpretações mais rebuscadas. Percebi o que há muito suspeitava: a verdadeira força não nasce da blindagem do ego, mas do despojamento. Não de uma alucinação mas de uma empatia. É aí que se encontra o amor sem truques. É aí que nos visita a solidão essencial. A que inspira, e já não assusta. A que nos devolve ao centro. É aí a forja onde se tempera o mais rijo aço e a mais delicada magia.

Isto vai aquecer!

(clicar para ampliar)


O Julgamento do Galo é uma tradição de diversas localidades portuguesas, nomeadamente do concelho da Guarda, tratando-se de um ritual de exorcismo dos males que acontecem às comunidades.O Galo é o culpado por intrigas, desavenças e demais insucessos que tiveram lugar no ano que passou, pelo que é julgado e condenado na praça pública, num ritual expiatório de purificação, no qual é renovada a esperança. O espectáculo será coordenado por Américo Rodrigues, que também assina o guião. Os textos estarão a cargo de Rui Isidro e (deste vosso criado). A concepção e construção do Galo do Entrudo estarão a cargo dos artistas plásticos Pedro Figueiredo e Albano Martins. O “Julgamento e Morte do Galo do Entrudo” vai envolver as colectividades do Concelho da Guarda e contará com a participação de vários actores da região. São personagens neste espectáculo, entre outros, Augusto Gil, Alberto Dinis da Fonseca, Joaquim Chamisso, Ribeirinha e o Velho da Retaguarda, que assumirão a defesa ou a acusação do “culpado”. O juiz deste julgamento será o Rei fundador da cidade, D. Sancho I, que determinará um veredicto.O convite da autarquia à Culturguarda para a produção do espectáculo acontece no seguimento da redefinição do modelo de gestão cultural que a Câmara da Guarda se propôs implementar logo no início deste ano. A Culturguarda foi já responsável por grandes produções com a participação das colectividades e manifesta adesão popular, como o espectáculo Guarda, Paixão e Utopia, e a Evocação da Visita da Rainha Dona Amélia para comemoração do Centenário do Sanatório Sousa Martins.”

O texto supra foi retirado do blogue do TMG, onde poderão encontrar toda a informação relevante acerca deste notável evento que, por uma noite, vai encher a cidade de côr e de animação.

Nota: esta entrada será reposta por diversas vezes até dia 4.

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